Magno da Adidas
Campina Grande, 30 de Abril de 1983
Há muitos anos atrás este ser que vos fala perambulava sozinho pela Via Láctea atraído pela luz de uma pequena estrela chamada “Sol”, quando percebeu um minúsculo e belo planeta verde azulado e decidiu visita-lo.
Após cair no meio do Oceano naveguei por vários dias, e quando começava a achar que neste planeta nada havia além de água, finalmente encontro terra firme. Para meu espanto, os nativos que encontrei me falaram que o nome do planeta era Terra.
Dentro de pouco tempo conheci todo o planeta, que é bem bonito é verdade, apesar de tão mal cuidado. Belas montanhas, florestas, cordilheiras e desertos, água e vida por toda a parte. Mas quem mais me chamava a atenção eram os nativos do planeta. Seres apressados, confusos e insatisfeitos com qualquer coisa que estivessem fazendo, e profundamente solitários, por mais que estivessem rodeados de nativos por todos os lados eles sempre encontravam um jeito de se sentirem sozinhos.
No inicio achei aquilo uma maneira bem esquisita de tocar a vida, mas passados alguns dias neste planeta eu também fui atingido por uma inexplicável solidão, algo que não havia sentido nem nos planetas mais desertos do Universo, e nem na mais silenciosa escuridão do Espaço vazio. Logo deduzi que aquilo era alguma praga natural daquele planeta e que havia me contaminado. Decidi não deixar mais a Terra enquanto não encontrasse uma cura para tamanho mal que me assolava, afim também de preservar o restante do Universo da contaminação do “Mal da Solidão”.
Pesquisei toda a atrasada literatura científica do planeta atrás de uma cura, mas tudo que eles me ofereciam eram pílulas que me deixavam com a cara de bobo e depois aumentavam os meus sintomas. Depois pesquisei toda a literatura dos líderes espirituais, o que acabou confundindo ainda mais a minha cabeça, pois nos livros não haviam respostas e sim mais perguntas.
E meus sintomas iam se agravando cada vez mais. No início era apenas vontade de andar de trem sem rumo durante horas. Com o tempo passei a sentir falta intensamente de pessoas que acabara de conhecer. E as coisas só pioravam… Comprei um violão e comecei a compor canções para qualquer nativa que sorria para mim, arrebatando meu coração. Sentia a necessidade incontrolável de fazer amigos, e como os terráqueos nunca param quietos num lugar, a despedida deles só aumentava a minha solidão.
Há pouco tempo venho percebendo a gravidade preocupante da minha situação. Como não sou deste planeta meu organismo não tem muita resistência à enfermidade e sinto como se meu cérebro estivesse atrofiando. Não perco mais nenhuma Novela, assino várias revistas de auto ajuda e assisto qualquer filme que tenha um casal se beijando no cartaz. Espiritualmente venho envelhecendo muito rápido e estou me sentindo quase um senhor no auge dos meus 226 anos.
Escrevo esta carta porque sinto que provavelmente não terei mais noção de quem eu sou quando acordar amanhã. Usei o restinho da minha consciência para escrever esta carta e coloca-la numa cápsula espacial.
AMIGOS, EVITEM O PLANETA TERRA.
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