fevereiro 12, 2011

Quilometragem

Lulu Ternura

No ônibus, ia sentado ao lado de um sujeito gordo e, pior, espaçoso. Não parava de se mexer. A viagem era longa. Um comprimido para dormir havia enganado a primeira hora de trajeto, mas havia ainda outra e outra, e assim o tempo ia passando, entre cotoveladas do vizinho e algumas paradas na estrada. Achava engraçada a visão dos postos de gasolina nas rodovias. Um tanto apocalíptica. Estabelecimentos no meio do nada habitados por gente cansada e de mau humor. Era isso aí. Pegou a mochila e se esgueirou por cima do companheiro de banco. Filho duma puta, pensou, enquanto conseguia se espremer e passar rumo ao corredor do ônibus já vazio. Desceu ao som do motorista avisando. “Quinze minutos, quinze minutos”. Como se alguém quisesse ficar mais do que isso naquele lugar.

As mãos correram pelos bolsos e acharam um cigarro. era a única coisa que dava algum sentido àquelas pausas no caminho. Sentou na calçada, de frente ao ônibus, e deu uma tragada enquanto olhava a pequena movimentação, uma fila se formando para entrar no posto-restaurante-oásis-algo-assim. Ainda dentro do veículo, o motorista também acendia um cigarro, ignorando uma placa logo acima de sua cabeça que indicava a proibição do ato. “Foda-se, foda-se, merda, foda-se tudo”, pensou, enquanto via o homem sair do volante e permanecer em pé na cabine, olhando para o horizonte que, nesse momento, mostrava apenas a estrada indo adiante, reto, cercada de mato por todos os lados. Na janela, uma grande placa com letras amarelas garrafais mostrava o destino. Não era? Ele não estava convencido, mas, de qualquer forma, era difícil lutar contra aquela informação tão crua. Estava voltando. Lembrar disso era, merda, não era lembrar, afinal, sabia o tempo todo. Remoer isso. É. Remoer era algo que não fazia bem. Mais uma puxada no cigarro, para acalmar. Algumas pessoas já começavam a voltar para o ônibus. Um casal de meia idade conversando baixinho. Quando passaram, ele ouviu, falavam algo sobre trabalho. Céus. Deu uma tragada
sôfrega e raivosa no cigarro e levantou. Uma cerveja. Precisava de uma cerveja.

Entrou na enorme loja. umas quarenta pessoas ali, talvez só as que estavam naquela viagem, talvez só eles ali, em uma estrada qualquer, não conhecia muito os caminhos por ali, a uns trezentos ou quatrocentos quilômetros da parada final, em meio a uma serra que parecia não ter mais fim. Não poderia o mundo estar acabando, alguma praga ou demônio destruindo as cidades enquanto eles sobreviviam ali, qual filme de terror, isolados e salvos em um lugar ermo e desconhecido? Pelo jeito, não. Ao menos não havia mais filas, percebeu, enquanto caminhava para a geladeira e pegava uma latinha. “Malditos pontos de parada e seus preços astronômicos”, resmungou consigo mesmo enquanto calculava mentalmente se haveria dinheiro para pagar. Foi até o caixa com verdadeira pressa e voltou para o mesmo lugar na calçada, sorvendo os primeiros goles da cerveja não tão gelada. O clima também não exigia. Era um começo de noite de temperatura amena, nem calor, nem frio, poderia-se até dizer que agradável, não fosse tudo o mais.

“Cinco minutos, gente!”, gritou o motorista, já sentado de volta em seu lugar. Gordo, suado, vestindo uma camisa social amassada, o sujeito ligou o rádio em um volume baixo. A estação tocava uma antiga música sertaneja. Goles rápidos na latinha, terminando. O cigarro já apagado entre os dedos. Jogou a bituca no chão -que se fodesse a consciência ambiental e o caralho. Estava, um pouco de cerveja, estava voltando.  Novecentos e oitenta quilômetros, aproximadamente, segundo os mapas da internet. Mais um gole, não, precisava de mais uma lata, de mais, merda, de mais tempo, motorista. Ele mesmo havia se perguntado quem iria querer ficar ali, não era? Agora se perguntava por que voltar, por que subir novamente aqueles três degraus e ir lentamente até o assento vinte e sete ao lado de uma criatura gorda e sem qualquer simpatia, sem qualquer comentário digno a se fazer e com uma impressionante capacidade de provocar esbarrões e desferir cotoveladas. Cacete. Havia mesmo alguma explicação para aquilo, seria possível? E por que não tinha percebido isso antes? Ao pagar a passagem, cara, no guichê, a atendente bonita mas ranzinza por detrás do vidro, ao passar por tanta gente apressada e cheia de malas na rodoviária. E ele, o quê trazia? Uma mala com roupas, a carteira no bolso com já pouco dinheiro e um celular com números que agora seriam interurbanos. Gente que iria desaparecer. Que deveria, ao menos. Seria possível? O que trazia nas malas além de roupas usadas e um ano perdido, um ano de tentativa e erro e erro e erro?

“Você precisa ir, você precisa ir, não há lugar para você aqui, todos estão indo”, era o que sua mãe tinha falado, era o que todos tinham falado. E ele sentia realmente não haver, mas haveria também lá? Havia percebido que talvez as coisas não fossem tão simples assim. Um emprego vagabundo, uns companheiros de bar, um quarto de pensão, enfim, por um momento tinha pensado que as coisas poderiam caminhar, mas então quando parava e pensava, não havia nada, realmente. No fundo, ainda era tudo vazio. “Você muda de lugar, mas não muda de você mesmo”, foi a frase que veio à cabeça. Era isso? Não, ele jamais acostumaria com as ruas semi-desérticas e os montes de rostos disformes, conhecidos e semi-conhecidos que infestavam todos os cantos de sua cidade. E, não, não era muito diferente a quase mil quilômetros dali. A vida imitava a si mesma, com pequenas variações geográficas. Logo tinha chegado o desemprego, as tardes de tédio em casa, as sextas-feiras em um bar padrão, uma garota legal aparecendo, as coisas parecendo que iam finalmente tomar jeito, até o momento em que percebia que, não, nunca mais ia dar certo. Era como um ciclo. Como se tivesse perdido o único trem certo e agora todos levassem a lugares que não
importavam.

“Vamo subir, gente”.

Era o motorista, olhando diretamente em seus olhos, ele, o único ainda fora do ônibus, a lata de cerveja na mão, um último gole restando, já quente. Aquele gosto de mijo, aquele restinho, o fim, a vontade de vomitar. Passos vacilantes, subiu um, dois, três degraus. Caminhou pelo corredor. O gorducho dormia. Passou por ele empurrando, sem se dar ao trabalho de desviar. Abriu a janela e jogou a lata por ali mesmo. Estava, puta merda, voltando. Não tinha saudades, não tinha arrependimentos. Apenas as malas mal arrumadas e a certeza de que não seriam fáceis os naquele momento inumeráveis quilômetros restantes até o destino. Ou os sabe-se lá quantos mais dias ou anos até sabe-se lá o quê fosse, até qualquer coisa que valhesse.

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