fevereiro 12, 2011

A Balada de Jonas & Clarisse

Malange
 
    Jonas tinha vinte e poucos anos, um metro e oitenta, cabelo castanho, olhos pequenos, gostava de andar no Corcel do pai, ouvia sertanejo e via novela sempre que podia, gostaria de se chamar Rodrigo, sentia falta do feijão que sua mãe fazia e tinha genes recessivos para olhos verdes. Mas nada disso importa.
    Certo dia, Jonas começou a trabalhar na livraria do shopping da cidade. Logo no primeiro dia, seus olhos olharam para Clarisse. Clarisse tinha dezenove anos, era caixa da livraria há nove meses, tinha cabelos cacheados, um nariz e um queixo um pouco grandes, queria fazer faculdade de pedagogia e estava com o cabelo preso. Mas nada disso importa. Jonas se apaixonou por Clarisse no instante em que ele olhou para ela, ainda que ela não tivesse olhado de volta.

    Jonas sonhava com ela todos os dias, e foram muitos. Nunca foi um bom funcionário. Preferia observar Clarisse passar os códigos de barras das compras dos clientes. Às vezes Jonas passava perto dela. Clarisse às vezes acenava com a cabeça. Jonas enrubescia automaticamente. Uma vez, a caneta de Clarisse caiu no chão e Jonas pegou. Ela agradeceu, com um sorriso tímido. Enquanto devolvia a caneta, os dedos finos de Clarisse roçaram em sua palma. Ela usava um esmalte vermelho. Jonas teve de sair mais cedo do trabalho. Tinha taquicardia e suava frio.
    Certo dia, Jonas estava na livraria. Olhava para Clarisse. Ela conversava com a outra caixa, Leila. Leila tinha trinta e sete anos, dois filhos chamados Flávio e Dario, era casada com um professor de biologia, teve um pôster dos Menudos, gostava de banhos gelados e não sabia que tinha um tumor benigno na mama direita. Mas nada disso importa. Leila e Clarisse conversavam. Nessa hora, Jonas passava por elas. Foi rápido, apenas o suficiente para ouvir um pedaço de frase:
    - ...e quando eu estou com o meu namorado, é muito...

    Jonas não ouviu a frase até o fim. Nunca mais ouviu nada. Tornou-se o primeiro surdo por opção do país.

    Jonas tem hoje vinte e cinco anos. Desde então, nunca mais encontrou ninguém. Ainda quer se chamar Rodrigo e anima bares tocando o que lembra dos sucessos sertanejos da época que ouvia. Ganha mais do que ganhava na livraria. Clarisse foi traída pelo namorado numa micareta três dias depois de Jonas ficar surdo. Desde então, nunca mais encontrou ninguém. Hoje ela cuida da seção de CDs da livraria. Ganha o dobro do que ganhava naquela época e está no segundo ano do curso de farmácia. Ela achava Jonas bonito.
    Mas nada disso importa. Eles estão bem assim.

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