Camilla
Último dia que viu o gato caolho lambendo as patas na almofada. Último dia de viu Dona Esmeralda com bigode e cara de brava no portão. Último dia do quarto bagunçado com coisas alheias. Um alívio só. Respirava fundo para ter certeza da felicidade que estava sentindo.
Trabalhou com mau gosto e não fez muitas coisas além de grampear papéis e cancelar as contas que mantinha em redes sociais. “Seis da tarde como era de esperar, Maurílio!”, cantarolou quando deu a hora de ir embora. Sorriu, jogou o corpo para trás na cadeira e deu um sorriso sincero. Respirou fundo e ficou imaginando o tamanho que seriam os pulmões. Comparou com garrafas PETs verdes de 2 litros.
Saiu do escritório e pegou o primeiro ônibus que passou. Sentou-se na janelinha e ficou pensando que poderia fazer um documentário em que a tomada de câmera fosse as coisas que passassem pela janela. “E ainda consideram vidro um material líquido, vai entender”, pensou em voz alta. Obviamente o filme seria de cinema de arte não-hollywoodiano, não um documentário e nem uma superprodução- chegou nessa conclusão dias depois.
Procurou, achou e entrou na Secretária de Troca e Intercâmbio Mundial Intergovernamental de Realidadel, o SETROIMIR, e se dirigiu ao balcão: “Quero outra vida, de preferência no Brasil mesmo.”, ordenou para uma funcionária gordinha com cara de bibliotecária. Fez cara de choro ao saber que demoraria pelo menos outras cinco semanas para conseguir trocar de realidade. Assinou inúmeros papéis com dados pessoais, que iam desde time do coração até o livro preferido. Dados profissionais e familiares também foram requeridos. Depois disso ganhou um protocolo, com o qual poderia consultar o andamento da solicitação de troca pela internet. Maurílio tinha certeza que a troca seria naquele dia mesmo.
O SETROIMIR também aplicava testes para os candidatos a troca mútua de vida. Em outras palavras, um intercâmbio mundial de troca definitiva de realidade. Eram vários os testes psiquiátricos, mas muitas pessoas desistiam por conta do Monólogo em Frente ao Espelho. Era uma autotortura incentivada pelo programa, não com essa definição, claro.
Olhou para o espelho, se viu e começou a falar com a outra face no plano virtual. Achou aquilo uma bobeira e foi dormir. Não dormiu, ficou olhando para o teto e pensando se aquilo mesmo era necessário. Pensou que até que era feliz ganhando alguns salários mínimos por mês e com uma internet ilimitada. Queria sair dalí e da monotonia.
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Fernando se sentia incomodado com a planta carnívora de seu vasto quintal. Toda vez que ele precisava passar pelo jardim, a planta o mordiscava as canelas e os braços. Achava aquilo insuportável, mas o dono da casa, o próprio pai, falava que a invenção modificada geneticamente espantava os ladrões. O estudante de administração sempre repetia o argumento: “Mas, pai, você já tem três cachorros e uma equipe de segurança!”. Nunca adiantava.
Louco por carros, confessou a um amigo o que fizera no final de semana passada ao passear horas e horas em uma estradinha de terra. "Fiquei olhando aquela água limpa, transparente, cristalina e a única coisa que passou na minha mente foi em colocar ela no radiador do meu carro". Sonhava em ser engenheiro mecânico. Mas o pai não gostava da ideia. Queria um herdeiro para tomar conta do conglomerado. “Se quiser, mude para Direito, mas engenharia não!”
Vivia infeliz, a maioria das decisões em torno da vida dele era o pai que tomava. Se sentia um incapaz perante a própria vida e futuro. Se inscreveu, escondido, no SETROIMIR.
Saiu mais cedo de casa com o pretexto de ter se matriculado em aulas de boxe. Não antes de convencer a família que aquilo, sim, era um esporte de cavalheiros. “As brigas são só atrás dos ringues, paiê”
Enfrentou a mesma burocracia que todos enfrentavam, sem regalias por ser rico e aparecer em colunas sociais: filas, formulários e dicas para o temível Monólogo em Frente ao Espelho. Só mais cinco semanas como um enrustido que não podia controlar a própria vida. Queria fazer carros e andar neles em campos de provas, podendo chegar a 300hm/h.
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Maurílio se inscreveu no SETROIMIR com o desejo de poder ter uma realidade menos medíocre e poder mandar no próprio nariz. Ele ficava aborrecido toda vez que pensava que seus planos tinham fracassado. Andava com uma trupe de malabaristas e palhaços. Gostava deles, mas não tinha talento para essa vida. Foi reprovado no exame psicotécnico quando foi tirar uma carteira de motorista. Não tinha o menor equilíbrio.
Acreditava que não tinha como mudar o rumo da vida pois era da classe dominada, não a dominadora. Não tinha pretensões com a riqueza, títulos, fundos de renda fixa ou investimentos. Só queria ter grana e tempo o suficiente para poder estudar filosofia e poder escrever. “Satisfação intelectual”, costuma brandar por aí, quando bêbado. Não queria trabalhar, queria escrever, tirar fotos e ter aulas de violão. Não queria alugar a força de trabalho por míseros reais e ter que grampear (ou escanear) papéis para isso. Queria mais. Mas isso, só mudando de vida primeiro.
“Senhor, o senhor pode escolher entre vidas aqui”, falou a gordinha de óculos e aparência de bibliotecária. Ela mostrou na tela do computar os anúncios de realidade compatíveis com as quais ele queria :
1) Família simples no interior italiano. Tranquilidade e sossego. Em troca é necessário ordenhar cerca de 100 cabras por manhã, mas pizza e vinho são o suficiente para uma vida feliz e saudável.
2) Família carioca do alto do Dona Marta, trabalho tranqüilo de líder comunitário. As vezes apareço na TV.
3) Família abastada que mora em um dos melhores bairros de São Paulo. Não trabalho, só estudo
Escolheu a terceira opção, obviamente. Só faltava Fernandinho aceitar o anúncio que Maurílio disponibilizou: “Família afetuosa que cobra trabalho, mas dá amor. Labrador de estimação, TV a cabo e internet ilimitada”. Aceitou, pois o anúncio tinha aquilo que ele sentia falta na atual realidade: um pouquinho de amor familiar.
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Marcaram a troca para dali três dias. Alguém do SETROIMIR ligara para confirmar a data e horário.
A troca é um processo interessantíssimo. Tecnologia de ponta, desenvolvido por uma universidades australiana mas com verba da Finlândia. O país nórdico se interessou pelo projeto, pois muitos, muitos mesmo, de seus habitantes recorrem ao suicídio como uma maneira de fugir dos descontentamentos cotidianos – e do frio.
Os participantes sentam-se lado a lado e conversam um pouco, cada um sobre a própria vida. As memórias são passadas para um placebo através de um método hipnótico, depois, cada um ingere a pílula certa contendo a memória alheia. As lembranças já são a do outro.
Os sentimentos em relação a personalidades, pessoas e cultura em geral são passados por um fiozinho que sai de um capacete a outro. Parecia perfeito. Trovejava e chovia fortemente no dia. Os dois morreram eletrocutados na fase do eletrochoque. A última parte terminou sem sucesso e com dois corpos. Parecia perfeito. Quase tiveram a vida que sonharam.
“Está dentro do limite de óbitos. Não podemos fazer nada e não foi nossa culpa. A natureza também castiga o homem”, contou o técnico responsável pela troca a um canal de televisão. Muita gente concordou e outra parte cobrou Justiça das autoridades competentes. Fizeram uma barricada e queimaram dois ônibus.
Nossa, que texto legal. Gostei mesmo.
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