Daniel Cara de Macaco
Quando tinha seis anos de idade, sempre que estava brincando na rua e ouvia alguém gritando “É o Zé Maluco!” era uma correria desenfreada. Todo mundo se escondia. Alguns nas árvores, outros iam para a própria casa e os mais desesperados chegavam a se jogar embaixo dos carros. Passava o tal Zé Maluco sem que se ouvisse um pio na rua. Depois que ele se afastava, a brincadeira voltava do ponto em que parou.
O mais curioso nessa história é que na época ninguém sabia o motivo para se esconder. O Zé Maluco não era assassino, não era bebum, não falava sozinho, tinha residência fixa e sequer havia registro de ele ser uma pessoa de má índole. Tinha uma fisionomia assustadora, é verdade, já que não sorria, era meio careca-cabeludo e de barba. Só que isso não justificava o pânico coletivo.
Com o tempo, surgiram vários boatos. O mais comum era de que batia na esposa e nos filhos. Só que não me lembro em nenhum momento de ele andar ao lado de uma mulher ou de uma criança. A fisionomia mal encarada dele era solitária. Era ele e ele. Ou melhor, ele e sua barba. Ninguém mais. Nada mais.
Os fins de semana na rua iam se sucedendo e cada vez tínhamos menos medo dele. Sempre alguém alertava a vinda da figura nefasta, só que do desespero de subir em árvore e se esconder embaixo de carro, passamos a ficar atrás do poste, depois a atravessar a rua, depois a interromper a brincadeira para que ele passasse e por fim somente à indiferença. Zé Maluco nunca reagiu à nossa presença.
A indiferença chegou a tal ponto, que nem percebemos quando ele parou de passar. Só nos demos conta alguns anos depois, quando passávamos a noite contando histórias de terror na rua. Por algum motivo, alguém lembrou do Zé Maluco. Poucos se recordavam dele, já que houve uma renovação de crianças na rua. Mas quem se escondeu nas árvores ou embaixo dos carros sorriu. E cada um foi contando a pior maneira que escolheu para fugir dele. Nesse papo, alguém perguntou se ele era perigoso e ninguém soube dizer. Afinal, por que éramos apavorados pela presença do Zé Maluco?
Hoje, quase duas décadas depois, a pergunta persiste. Poucos se lembram dele, os que se lembram não sabem para onde foi ou se está vivo e absolutamente ninguém conhece sua real história de vida e o motivo de nosso pânico. A única certeza que temos é que, para ele, os josés malucos éramos nós. E ele está coberto de razão.
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