Afonso
Aquela estrada carroçal era palco de muitas mortes, num sem-número de modalidades: de jumento desgovernado a facada no rim. Via muito antiga, acumulava as cruzes desde os salgados tempos das charqueações. É certo que estradinhas são lugares morrediços, perfeitos campos de pouso para as rapinas, mas essa tinha verdadeira vocação. Muitas vezes o moribundo tomava um último fôlego e o papudinho adiava a topada, só para nela se acabarem.
Todo filme de morte tem sua cruz como claquete. Cruz é cruz, mas o apuro na feitura denotava a qualidade do defunto. Para o escravo, não mais que dois galhos toscos e mal amarrados; para o coronel, até um altarzinho caiado. E três ou quatro marteladas na terra quase avara bastavam para fincar a lembrança do finado.
Tanto de tanto de mil novecentos e tanto foi o dia mais intenso da estrada. No quebrar da barra, qual agguato à mafiosa, uma fileira de garrucha derrubou um homem de sua monareta encarnada. Mais ao norte, uma braça de sol serviu de primeira mortalha a um coração fulminado. Na cabeça do alto, depois que o pino do sol se retirou, o sangue do bodegueiro explodiu em derrame.
Mas a viração da tarde trouxe consigo um assopro de vida, por mais tênue que fosse. Duas mulas vinham adestradamente conduzindo uma carroça, sobre a qual estavam um marido transtornado e uma esposa prestes a parir. A julgar pelos gritos e pela respiração canina, o nascimento era iminente. O primeiro parto na estrada em que gente só morria. O homem teve o tino de frear os animais quando percebeu os solavancos quase expelirem a mulher.
A cabeça da mãe era um redemoinho em cotovelo d'água: asas, caixõezinhos azuis, umbigos, choros, bolas... O pai era sem rumo no trato com a parturiente, só ensaiava os gestos de socorro e clamava aos céus alguma intervenção. Após, enfim, longos minutos de agonia e não se sabe por que arte da anatomia, o menino saiu do ventre. Mas no fim paradoxal da sua quase vida, nasceu morto.
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