fevereiro 12, 2011

TIÃO CASCUDO

Marcelo Tubarão

A história oficial diz que o gol do América no empate em 1 a 1 contra o Democrata de Sete Lagoas pelo Campeonato Mineiro de 1996 foi marcado pelo Celso, o artilheiro plantonista na época. Mas a história mente, e quem garante sou eu: a bola só entrou graças ao desvio providencial de um zagueiro inimigo. Foi gol contra, podem confiar. Mas como que uma partida tão distante no tempo e no coração da torcida pode deixar em mim essa sensação tão viva de que foi tudo anteontem? Simples – foi nesse jogo de poucos atrativos que meu avô me apresentou o América, o Independência e o futebol.

Flor de homem, o meu avô! Enterraram-no de chapéu, exigência expressa dele - nunca admitiu que um mero capricho da moda lhe tomasse a ferramenta de cumprimento do dia-a-dia, uma pequena teimosia que acabou por virar marca registrada. E por mais que os pulmões e a razão reclamassem, nunca conseguiu abandonar o cigarro de palha e o América: Era da época que pro sujeito ser homem ele tinha que ter algum vício, ele dizia. Junte tudo isso aos impagáveis causos que ele sempre fazia questão de contar, surgisse ou não a oportunidade, e você me tem na dúvida se ele realmente existiu ou se era somente a minha imaginação projetando meu ideal de avô. 

Um de seus causos favoritos era justamente sobre a curta experiência que tivera como profissional do América. Fiz parte dos times de 64 e 65, ele dizia. Me botaram o apelido de Tião Cascudo, sei lá por que. Eu ficava ali no meio, mais perto da defesa, dando cobertura, sabe?, era raro isso na época. Gols eu não fiz muitos não, mas muita gente deve alguns aos meus passes – inclusive o próprio Jair Bala, vejam só vocês. Joguei com ele no time de 64. Eu era reserva na época, a gente tinha um verdadeiro esquadrão, mas acabamos perdendo a final pro Siderúrgica – rapaz, mas foi um choque... Mas 65, ah, 65 era o meu ano. Comecei o campeonato arrebentando, aquele era meu momento de aparecer, os jornais rasgavam uma seda danada pra mim. Chegou a ter boato de que o Flamengo andava de olho em mim, pra vocês terem idéia. Mas aí veio aquele jogo contra o Renascença, quando quebraram minha canela. Lembro como se fosse ontem – recebi o passe de um contra-ataque e fui zunindo igual um foguete, ia ficar cara a cara com o goleiro. Mas aí chega o beque deles, tal de Bicanca, vagabundo da pior espécie, e vem feito uma vaca brava de sola pra cima da minha canela. Meu futuro, minha carreira, tudo terminou ali, naquele crime. Tivesse eu jogado até o final do campeonato o Cruzeiro jamais teria sido campeão, podem ter certeza.

E volta e meia vovô repetia a mesma história, sempre acrescentando um detalhe (“Não é pra me gabar, mas até o Jair Bala ficava besta com os meus passes”) ou uma nova ofensa ao tal do Bicanca (“Batia na mulher, o celerado”). E todas as vezes que a história era contada ficava uma sensação de estranheza no ar, daquelas que a gente tem quando sente que tem alguma coisa errada no que ouviu mas não sabe o que é e fica com medo de pensar no assunto. Mas belo dia aconteceu. Um de meus tios, o que tinha fama de ser mais franco, tomou coragem e disse:

_Papai, o senhor vai me desculpar, mas “Tião Cascudo” pode ser tudo, menos nome de craque.

A história do vovô, até então incontestável, passou a ganhar contornos de falsidade graças a uma única observação bem feita. O que meu tio notou foi simplesmente o óbvio, que pessoas homéricas só podem ter nomes homéricos, ou, se não têm, tratam de arranjar um – no futebol não seria diferente. “Há exceções”, dirão os medíocres, os chatos e os sem imaginação, mas estas são somente as que confirmam que existe uma regra. Os craques são conhecidos ou por um apelido original de poucas letras ou então pelos seus primeiros nomes, de vez em quando adicionando um apelido que designe o Estado de origem do dito-cujo. Já os que são somente bons jogadores são os Donizetes, os Da Silvas, e aqueles conhecidos apenas por um sobrenome. O “Tião Cascudo” de meu avô o condenava ao terceiro grupo, o dos esquecidos. O grande exército de boleiros anônimos que sonha em um dia, talvez quem sabe!, ser notado por um dos grandes clubes das capitais, mas que acaba falhando. Um Tião Cascudo de toque refinado, circulando triunfante pelo meio de campo, é simplesmente impensável. O técnico o barraria na primeira oportunidade, e o condenaria a uma honesta porém brutalizada função de zagueiro, ou simplesmente o enxotaria dizendo “Nem você nem seu nome servem pro futebol”. Vovô com certeza devia ter dado suas botinadas como um bom e velho beque da roça e depois romantizado a coisa toda, transformando sua história de guerreiro esquecido numa epopéia trágica. Apenas isso. Tião Cascudo negava, mantinha sua versão, desafiava a família a consultar testemunhas inacessíveis. Mas não havia discussão: o pitoresco apelido retirava-lhe até mesmo o benefício da dúvida.

Depois disso tudo, nas raras vezes que ousava recontar sua saga como boleiro vovô era atingido pelas risadinhas cínicas dos próprios filhos. A princípio ignorava-as, dizia que era coisa “destes ingratos que desonraram o próprio pai e escolheram o Atlético”, mas acabou vencido pelo cansaço e não contou mais a história. Isto, claro, até aquele outro belo dia. Tive o prazer de ser testemunha de tudo. Como de costume, vovô me chamara para ir ver o América. Sentamos no lugar de sempre, comemos a comida de sempre, berramos os palavrões de sempre. A única visão nova era um senhor mais gordo e grisalho sentado a poucos metros de nós, de quem vovô estranhamente não tirava o olho. O jogo rugindo, o América uivando, e vovô com uma expressão indefinida no rosto, sempre atento ao tal senhor. Depois de uma meia hora de jogo, finalmente foi ter com ele:

_Com licença.

_Sim?

_Você por acaso não seria o Bicanca? Jogou no Renascença na década de 60?

O rosto do velho se iluminou.

_Sou eu mesmo! Não acredito que depois desses anos todos – e parou, tomado pela surpresa – mas você não é o Tião Cascudo, do América?

_Eu mesmo!

_Impossível! Dê cá um abraço!

E os dois velhos se abraçaram, um estapeando as costas do outro, como se nunca tivessem sido outra coisa na vida além de grandes amigos.

_Ô Tião, cê me desculpe pela perna...

_Ora, mas o que que é isso? É água passada.

_Mas você tinha talento, jogava bonito. Diferente de mim, que tratava a bola na base do coice.

_Quanta bobagem! Se esses pés-rapados de hoje – e apontou para os jogadores no campo – tivessem metade da raça que você tinha, o América não estaria na siuação em que está.

_De que adianta ter raça se eu nunca tive técnica? Você sim era uma coisa, eu lembro bem, os jornalistas só faltavam lamber o chão que você pisava.

_Também não vamos exagerar...

Assim que a troca de afagos terminou, um quis saber da vida do outro. O que fez depois de pendurar a chuteira? Tem filhos, netos? Tenho, quer ver as fotos? E o Fulano, tem notícias? Não deu certo no futebol, virou cabeleleiro. E Beltrano? Câncer na próstata, Deus o tenha. E Sicrano? Etcétera. Até que vovô fez o convite:

_Escuta meu velho, por que não continuamos a nossa conversa em casa, enquanto a gente janta? Será meu convidado de honra. E nem pense em recusar, senão vou ter que te lembrar que você me deve uma perna.

O Bicanca aceitou, comovido. Vovô fez questão de convocar a família inteira para este jantar de emergência, e então pôde esfregar na cara de todos os incrédulos o Bicanca, do alto de sua felicidade nostálgica, jurando pelas almas de seus netos que “não fosse pela truculência deste seu criado o América não precisaria ter chorado a ida do Tostão pro Cruzeiro”. E lá ficou o grande Tião Cascudo, os olhos marejados, saboreando a vitória sobre os hereges, os elogios do Bicanca trazendo de volta seus tempos de glória.

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