Junior Zé Lelé
Menosprezou o espaço pra saudade: dois pares de tênis, dois jeans dos menos velhos, uma dúzia de camisetas e cuecas e pronto, puxou o zíper e evitou despedidas, como sempre, mesmo que por um momento tenha se permitido um olhar panorâmico no quarto, afinal, vai saber se voltaria, vai entender quando ou se sim estaria um dia de novo ali no seu cubículo-universo, enquanto ainda assim se permitiu um abraço na família e um até logo pro cachorro – correu pro portão pra evitar mais olhares de interrogação, sem passagem de volta ou endereços para cartões postais.
Ao chegar, mais que clamar por roupas e abraços e cafés tão rapidamente quanto logo frios, se impressionou com o vento que soprava no ouvido, gritando, implorando, em um ou dois graus celsius, tantas dezessete milhas por hora e a certeza de que poderia arrastar toneladas de clichês e vícios decorrentes daquilo que é, que era, ou que então retomará, sem alternativa para segurar as manias, caricaturas, apenas se deixando levar pela direção que aquele vento soprava, talvez de forma que nunca antes conseguira, nunca antes imaginar ter de se levar.
Ventava e ventava diferente, um pouco pela passividade para com as calçadas e muros e sapatos e banhos bem tomados, um muito pelas amarras que o calendário havia de pregar, mas somou a isso a inquietação dos vinte e poucos, aquele quê de classe média terceiro mundista, traços latino-americanos, certas considerações obtusas, irritações, inquietações, certas alergias de alguns males necessários, então ventava e ventava pra levar toda a transpiração insatisfeita, moderna e cansada, soprando uma coceira de novidade, fome de sede, sede de procurar o que beber.
As rajadas entram e passam por todas as ideias pré-estabelecidas, como venta, e como há de ventar para empurrar todas aquelas vozes, olhares, palavras, sensibilidades, é como se pudesse ter saído um pouco de si e ver ali um corpo em estado nu de matéria – início, completo início – sem deus nem espelho, sem meias, ileso ao frio, preparado para que o vento fosse um crítico voraz e irônico daqueles passos, logo eles, que pisavam com uma certa arrogância disfarçada, meio confiante meio sereno, mais de cinco mil milhas de distância para o transformar em nada, em cru.
Entra pela janela e ainda ri das convicções tão categóricas, quase que diretrizes que carregava no bolso da calça, venta e o pedido era para que ventasse mais, mais e mais, o mais gelado dos ventos que pudessem tirar o conforto do calor tropical, desossar os gostos, amores, tristezas, fortalecer o eu, o próprio samba, vírgulas autorais, acentos difusos – mas ímpares.
Aqui o vento é emplasto, tardio e pontual: pudera fazer daquele velha instituição coisa nova, pura, que sonhe e vença calçadas sem pressa nem receios, que permita um memórias póstumas vivo, porque o velho sem vento (pálido, estático e previsível) descansa num espaço da mala, o pequeno e quase mínimo espaço que sobrou entre a nostalgia, o amor e os trocados pro trem sem volta.
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