.Luis
eu e as corridas pela quadra;
eu e os armazéns das esquinas;
eu e as outras crianças:
nós contra o mundo.
até que dobramos a esquina
e aí a outra casa;
tão diferente das nossas,
em cores (desbotada) e
em forma (arruinada).
jogamos pedras
nas janelas empoeiradas;
nós contra a casa.
o que era diferente,
por ser diferente,
foi aventura.
todo dia: pedras nas mãos e
gritos nas bocas.
fazer porque se pode:
infância.
nós contra o nada.
até que aquele dia
(aquele dia é difícil esquecer)
as pedras bateram nos vidros,
como sempre;
mas a porta se abriu,
como nunca.
aí no meio da calçada:
o velho da casa,
velho enrugado
barba comprida e costas caídas.
nada falou,
só ficou ali,
parado e olhando.
corremos e nunca mais voltamos.
nós contra nós.
hoje eu lembro disso;
cada detalhe encravado,
a memória latejando e
os dedos batendo ao teclado.
escrevo; não falo
(assim como o velho).
escrevo na madrugada;
eu contra o mundo.
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