Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
Mário Quintana, Do Amoroso Esquecimento
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?
Mário Quintana, Do Amoroso Esquecimento
Ela chegava cada vez mais perto. Vi de longe, no meio daquela multidão que enchia uma rua ao fim da tarde, o céu escurecendo lentamente por sobre o lago, reconheci os óculos quadrados e vermelhos, a camiseta que ajudei a escolher, com a estampa de um dos nossos filmes favoritos, o cabelo pintado de uma cor diferente, mas ainda assim familiar, eu nunca ia esquecer desse jeito que ela o prende, um coque firme na nuca com algumas mechas rebeldes soltas ao lado do rosto, sempre achei isso lindo e por isso mesmo adorava desarrumar quando estávamos deitados.
Ela chegava cada vez mais perto. E eu não sabia o que o fazer, muito menos o que pensar, nós estávamos na mesma calçada e a qualquer momento ela ia passar ao meu lado, com aquele perfume que eu iria reconhecer na hora, aquele que vinha num vidrinho verde escuro, um vidrinho muito bonito; a cada passo o encontro ficava mais próximo e eu não sentia absolutamente nada, era como se tivesse um buraco entre o pescoço e o estômago, a visão dela não me submetia a qualquer espécie de emoção e me senti mal por isso, porque era como se visse uma estranha qualquer, muito bonita é verdade, vindo na minha direção, não sentia nem mesmo o frio na nuca que sempre senti quando chegava perto dela, era como se encarasse algo inanimado, eu estava sereno e isso me abalava de certa forma.
Ela chegava cada vez mais perto. Vinha calmamente, como sempre, com aquele andar de passos pequenos, os pés sempre tão vacilantes, enfiados quase sempre em sandálias de plástico ou tênis surrados porque odiava usar salto, e não me via porque andava correndo os olhos pelas vitrines na lojas, sempre tão distraída que as vezes eu tinha que segurar em seu braço pra que não tropeçasse em alguma falha no calçamento. Algumas coisas nunca mudam. Outras mudam mais rápido do que a gente possa notar, ainda nem piscamos e voi lá: já está tudo diferente. Com ela foi assim, as coisas pioraram numa velocidade atordoante, de fazer a cabeça rodar, nós dormirmos bem e acordamos com um gosto estranho na boca, sabendo que tinha algo de errado e sabendo o que era esse errado, mas nos recusamos a acreditar, aí foram semanas torturantes porque nunca fomos bons fingidores, mas não queríamos admitir que não dava mais, num acordo silencioso nós nos arrastamos pelo relacionamento como escravos numa masmorra, até finalmente aceitar que o amor tinha acabado, e sim, de uma hora pra outra, sem motivos, sem culpados, sem podermos ficar bravos, sem nada pra fazer.
Ela chegava cada vez mais perto. Passou em frente a um bar que costumávamos freqüentar, um bar pequeno mas muito simpático, onde nós íamos desde quando ainda éramos apenas conhecidos, e depois começamos a ir como amigos, a ir os dois sozinhos, a ir como namorados, com aqueles velhos posters nas paredes engorduradas testemunhando nossa crescente intimidade, quantas noites terminamos ali, as caras quase enfiadas nas mesas de madeira, rindo de alguma coisa sem graça, empilhando copos, matando o tempo porque era a melhor coisa pra se fazer. Nunca mais fui lá depois que terminamos, assim como tantas outras coisas que eu nunca mais fiz, não por mágoa, mas porque elas não seriam as mesmas e eu não queria estragá-las com isso.
Ela chegava cada vez mais perto. Lembro bem dessa época, a melhor de todas, quando ainda estávamos nos conhecendo melhor, sem obrigações ou grandes expectativas, muito mais inocentes, aproveitando o momento e tentando dividir essa coisa pesada que a gente chamava de vida; falávamos sobre tudo e ela me considerava tão inteligente e eu a considerava tão delicada, ela sempre me pedindo indicações de livros pra ler e discos pra ouvir, e eu, como um professor empenhado, lhe mostrava essas coisas e muitas outras, lhe recitava poemas, Neruda, Drummond, Quintana, essas coisas apaixonadas, e pouco a pouco fomos nos enredando em algo muito maior que a nossa compreensão, até o dia em que a levei em casa e ela perguntou “não quer entrar?” e eu respondi “sim, porque não?” e conversamos sobre algumas poucas coisas antes das roupas voarem pelo apartamento pequeno e a partir daí soubemos que era uma situação mais especial do que achávamos, e que estávamos acorrentados de um modo muito agradável.
Ela chegava cada vez mais perto. E eu continuava a me martirizar, pois apesar de todas essas memórias afetivas que irrompiam e da distância pequena entre nossos corpos, não conseguia sentir nada de diferente, não conseguia reativar nada em mim, e eu procurei, em todas as partes do meu corpo, algum sentimento que respondesse à visão dela, mas não achei, juro que não achei, procurei até mesmo ódio, algo assim, resistente a qualquer passagem de tempo, procurei um desejo de vingança no mais fundo do peito, mas só achei palha seca e barro, como se estivesse empalhado.
Ela chegava cada vez mais perto. Vinha da parte baixa do Centro, pra onde eu estava indo, onde tem um museu com um cinema dentro, um cinema minúsculo, desses de programação alternativa que eu amo tanto e onde nós vimos nosso primeiro filme juntos, e eu nem lembro direito da história, mas lembro que ficamos repetindo algumas falas por semanas, como fizemos sempre depois, com todos os filmes que gostávamos, nossa relação sempre foi baseada em coisas assim, gostos em comum, e eu ficava feliz por isso, era o que sempre quis, ia pra casa sorrindo depois das sessões de cinema, passando as mãos pelas folhas das árvores que encontrava no caminho.
Ela chegava cada vez mais perto. Como foi possível ser tão frio? Porque eu não gritava seu nome ou porque não corria entre as pessoas, talvez até mesmo derrubando alguém no chão, não deveria importar, e ia a seu encontro, passava a mão entre seus cabelos, desfazendo mais uma vez o coque, porque não perguntei como ela estava, o que fazia, como iam as coisas, porque isso deveria me interessar, eu deveria morrer de curiosidade, eu deveria por meus braços ao seu redor e não a deixar escapar de novo, onde estava todo meu velho sentimentalismo, aquele que sempre me sobrou e justamente nessa hora resolveu secar, onde estava o cara que tantas vezes chorou quieto, agarrado em garrafas baratas?
Ela chegava cada vez mais perto. E nem lembro direito como foi que nos perdemos tanto assim; nós terminamos o namoro com aquelas velhas promessas de permanecer amigos, ser confidentes, enfim, agir como os adultos que não éramos e desconfio que não sejamos até hoje, prometi a ela essas coisas querendo acreditar que eram possíveis, porque todo dia ainda pensava nela, sem a mesma coisa vermelha viva pulsando no peito, é verdade, mas ainda a queria perto de mim e se a amizade era o que possibilitava isso, porque não tentar? Só que o tempo tratou de por abaixo esses e alguns outros pensamentos, um dia nos falamos e eu já não sabia o que dizer, em outro, ela me ligou e disse que era engano. Caminhamos em direções opostas tão facilmente, como se tivéssemos esquecido toda a carga de passado que carregávamos por cima das costas, e no fim um Mar Vermelho de distância se fechou entre nós.
Ela chegava cada vez mais perto. Numa cidade desse tamanho, tantas esquinas, tantos atalhos, tantos caminhos diferentes pra um mesmo lugar, num lugar desses muitas lembranças vão continuar sendo apenas lembranças se não for feito nada a respeito disso, e eu nunca fiz nada, guardei ela apenas na memória, uma boa lembrança, sem dúvida, a quem eu recorria muito esporadicamente, em certos dias preguiçosos, perfeitos pra se lembrar de um amor que não deu certo, como foi o nosso, e tantos outros meus depois desse, e imagino que tantos outros dela, essas coisas vivem dando errado mesmo. Devia fazer alguns bons anos que não a via, até esse dia, com ela vencendo o calçamento e vindo na minha direção, e tudo isso, todas essas reflexões correram a minha cabeça em segundos, como se alguém tivesse apertado algum tipo de gatilho.
Ela chegava cada vez mais perto. E tudo que eu queria era poder sentir alguma coisa. Queria ter ao menos algo meio divertido e meio inteligente para dizer, para poder vê-la sorrindo daquele jeito meio infantil e meio envergonhado dela. Queria perguntar “e aí guria, há quanto tempo né, por onde tu andou?” e me interessar sinceramente pela resposta, queria talvez falar “a gente tem tanto pra falar, quer sair pra tomar alguma coisa?” e ficar feliz por ela aceitar. Queria poder abrir uns braços do tamanho do mundo, como que dizendo pra ela que tudo bem, que nada mudou, que ela podia botar a cabeça nos meus ombros de novo.
Ela chegava cada vez mais perto. E tudo que eu queria era poder sentir alguma coisa. Eu queria, queria mesmo, mas não conseguia. Ou não podia, não sei.
Ela chegava cada vez mais perto.
Ela passou.
Nenhum comentário:
Postar um comentário