fevereiro 12, 2011

Asco

Thiago B.

Não gosto de dias quentes. Talvez seja pela escatológica lembrança do meu primeiro dia de praia. Mamãe me levou a uma praia cujo nome não me recordo agora - minha cabeça doi -, fomos a bordo de um ônibus pirata, até hoje aquele odor pútrido oriundo de uma mistura improvável de poeira, umidade e suor me esgarça a garganta e por pouco não me leva ao vômito. O calor dentro do veículo era insuportável: as janelas pintadas de preto transformavam-no em uma sauna.

Passo o olho por um termômetro de rua: 42 graus. A visão embaciada, aquele totem indicando a temperatura e as  horas, como uma miragem. Deslizo meus olhos ao longo do poste e ao seu lado miro um bar, algumas mesas displicentemente dispostas pela calçada. Na mesa da ponta, quase na esquina, um velho triste enche o copo de cerveja até espumar e escorrer por sobre a borda. Vejo-me ali, talvez mais novo, mas com a mesma aparência septuagenária, ainda chorando. Aguardo do outro da rua, sinto como se o choro se apropriasse de mim e as lágrimas, infindáveis, escorressem pelo meu rosto, salgadas como o suor que pinga pelo meu queixo. Passo a língua pelos lábios e sinto o gosto - suor? lágrimas? - e lembro da praia. Dou um passo à frente e ato reflexo me recolho novamente à calçada, um carro enorme quase me atropela, meus cabelos flutuam, grudam no meu rosto. Preciso de uma cerveja.

Todos que estão no bar me olham curiosos, será o cabelo? Dou um bom-dia com os lábios travados, custam a sair da minha boca. Ninguém me responde e continuam me olhando. Peço uma cerveja e prontamente o domo põe uma garrafa coberta por uma fina camada de gelo em cima da bancada de um mármore enegrecido e fedendo a cerveja quente. Olhando para o chão de cimento, ando em direção à mesa ao lado do velho. Seu copo continua no mesmo nível, seu semblante sofrido também. Quase cedo a um rompante de sentar-me ao seu lado e chorar em seu ombro, lamentar a vida, beber aquela cerveja já quente, talvez ele tivesse muito a me dizer sobre o sofrimento. Melhor não, talvez ele não entenda e me escorrace dali. A todo momento, como um farol a um palmo dos meus olhos, a imagem daquela mão cerrada de encontro ao meu nariz me perturba. Não pela dor, não por eu ter desfalecido quase imediatamente, mas por ter gostado da atitude. Cansei dessa porra, dizia aos gritos, suponho eu, pois a voz chegava aos meus ouvidos quase inaudível, somente a expressão severa e o indicador em riste sugerem o tom da voz. Ele sempre teve medo de que eu revidasse, seria um constrangimento apanhar de mim, notoriamente frágil. E eu torcia para que aquela palma calejada estalasse em minha face, como ele havia me acostumado durante os últimos quatro meses. O prazer me consumia ao vê-lo nervoso, reparava no que mais ele odiava, me esmerava e o fazia categoricamente, para que ele, enfurecido, me cobrasse explicações quase sempre vazias - não me esforçava em ser convincente - e logo depois me agredisse, a princípio em palavras e, percebendo a inutilidade das ofensas, desferisse mais um golpe contra meu corpo acostumado a reveses.

Divago e meu copo esquenta. Acabo com a cerveja com um único gole, o velho, pela primeira vez, se move e me olha indiferente alguns segundos e retoma sua observação do nada. Completo o dedo de cerveja que sobra do copo com outra porção, o isopor a manteve gelada. Ele não gostava de cervejas geladas: sempre esperava eu terminar meu copo para começar a beber, dizia que deveria ser consumida a temperatura quase ambiente, como aprendeu no ano em que viveu na Europa. Talvez seja isso: ele esquentava, e eu esfriava, essa minha repulsa pelo calor refletia em nosso sexo, verborrágico para ele e mudo para mim. Seus tapas de amor me incomodavam, seus xingamentos ao pé do ouvido me ofendiam profundamente, seu amor, sua devoção me entediavam. Mas sabia que não era ele o homem que eu amava. O verdadeiro príncipe estava nas noites em que ele chegava embriagado em casa e dormia com a roupa do corpo esparramado no sofá da sala, era aquele que acordava e não me via na cozinha preparando o café e me negava um bom-dia. Desaprendi as saudações básicas por falta de costume, os dias não eram tão bons como se imaginava.

Cansada das ambiguidades às quais ele me submetia, procurei não mais tê-lo perto de mim. Fisicamente era impossível, tentei duas vezes sair de casa e ele ameaçou tacar fogo nas roupas. Não tinha coragem de morar na rua, minha vida fora calcada na limpeza, tenho paúra da sujeira, não à tôa o asco me traumatiza, me mantém refém da lembrança por toda a vida. Passei a não mais reconhecê-lo, um organismo repelindo um vírus letal. Cautelosa, evitava o cômodo em que ele se enraizava. Enfadava-me nos afazeres culinários enquanto ele engolia latas de cerveja à imagem dos futebóis internacionais; contornava a área de serviço e, de passagem pela sala, entrevava-me no quarto enquanto ele retirava sua comida dos pratos. Torcia para o sono pesar em seu corpo e o fizesse dormir ali mesmo, deitado no sofá; inspecionava cada nova ruga costurada no canto dos olhos enquanto escovava os dentes, ao passo que ele tomava café com seu habitual cream cracker. Esquivava-me da sua voz. O sexo não me era útil. Já não escondia meu celular de seus dedos, largava-o em cima da mesa com a dica para a caixa de entrada, com incontáveis mensagens pornográficas trocadas com alguns de seus amigos, cujos números eram obtidos nas reuniões semanais que ele organizava para que fossem jogar pôquer e falar sobre a bunda alheia.

Foi em um desses dias que, inebriado pelo excesso de álcool e maconha, quebrou meu telefone e, sem proferir uma palavra, me pegou pelos braços e me levantou a dois palmos do chão, carregando-me pela casa e me jogando na cama. Olhava fixamente em seus olhos, pareciam pegar fogo, aqueles olhos dóceis, velados pelas droga do amor, ódio e maconha. Aqueles braços rijos, fortes para me conduzir ao altar e à cama, aquele tronco esculpido pelos anos de trabalho na estivação, aquele cabelo crespo, encaracolado e já escasso, aqueles dedos desfazendo minha roupa, os botões da blusa saltando para o chão coberto pelo tapete azul. Sentia o frescor do ar condicionado pelo meu corpo, olhos fechados e a pele crispada, sentia-me nua. Aquelas mãos afastando minhas pernas, alisando enfurecidamente minhas coxas, com todo o ódio que somente o amor poderia alimentar. Um tremor nas pernas, era ele se fazendo presente dentro de mim: tombei a cabeça para o lado e deixei um sorriso desenhado no meu rosto durante os longos minutos, quase horas. Ao fim, aqueles dedos, esmagando minha face e voltando meu olhar para seus olhos, o sorriso talhado. Logo após, a mão. Aquela voz ao fundo. Aquele dedo em riste. Aquela calçada. Aquele andar trôpego até a esquina do outro lado, onde vi a temperatura de um dia quente, tudo aquilo que não gosto, tudo aquilo que já gostei, todas as possibilidades.

Volto à cerveja, quente. Decido pelo derradeiro gole, não aguento, o líquido ameaça escapar da minha boca, cuspo um pouco, respinga no meu braço, mais uma vez o velho se dá conta de que há alguém ali perto. Dessa vez, balbucia uma provável crítica à minha atitude, inaudível. Procuro mais dinheiro pelo bolso da saia, encontro apenas uma pedra. Deslizo o dedo por ela, sem vê-la. Talvez eu tenha realmente que estar aqui. Agora não há mais nada. Nem ele. Nem eu.

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